27/05/2009 Os excluídos são representados
Essa lei fundamental, que assegura a todos o mesmo direito de pertencer, não tolera violação. Onde isso acontece, existe no sistema uma necessidade inconsciente de compensação, que faz com que os excluídos ou desprezados sejam mais tarde representados por algum outro membro da família, sem que essa pessoa tenha consciência disso.
Quando, por exemplo, um homem casado se relaciona com outra mulher e diz à própria esposa: “Não quero mais saber de você”, inventando falsas razões e cometendo injustiça contra ela e depois se casa com outra mulher e tem filhos com ela, sua primeira mulher será representada por um desses filhos. Uma menina, por exemplo, combaterá o pai com o mesmo ódio da mulher rejeitada, sem ter consciência dessa representação. Aqui atua uma força secreta de compensação, para que a injustiça feita à primeira pessoa seja vingada por uma segunda.
Muitos acontecimentos infelizes na família, tais como desvios de comportamento dos filhos, doenças, acidentes e suicídios, acontecem porque um filho inconscientemente representa um excluído e quer dar-lhe reconhecimento. Nisso se revela ainda uma outra propriedade da instância superior. Ela faz reinar justiça para com os antecessores e injustiça para com os sucessores.
A solução
A solução de tal emaranhamento torna-se possível quando a ordem básica é restabelecida, isto é, quando os excluídos voltam a ser acolhidos e respeitados. Neste caso, por exemplo, a segunda mulher deveria dizer à primeira: “Eu estou com este homem às custas de você. Eu honro isto e reconheço que lhe causei injustiça. Por favor, queira bem a mim e aos meus filhos”. Desta forma, a primeira mulher é respeitada. Pois com isso está sendo reconhecido o seu direito de pertencer.
A solução exige também que a menina que imita essa mulher lhe diga interiormente: “Eu pertenço apenas à minha mãe e ao meu pai. Aquilo que se passou entre vocês adultos não tem nada a ver comigo”. Ela diz a seu pai: “Você é meu pai e eu sou sua filha. Por favor, olhe-me como sua filha”. Então o pai não precisa mais ver nela sua ex-mulher nem defrontar-se com o eventual ódio ou tristeza dela. E no case de ainda amá-la, não precisará olhar sua filha como sua amante, mas apenas como sua filha. Assim a filha pode ser a filha e o pai pode ser o pai.
A criança precisa também dizer ao pai: “Esta aqui é a minha mãe. Com sua primeira mulher não tenho nada a ver. Eu tomo esta aqui como minha mãe. Ela é para mim a certa”. E então a criança precisa dizer à mãe: “Com a outra mulher não tenho nada a ver”.
De outra forma, essa criança se tornará uma rival da mãe e não poderá ser filha. Talvez a mãe veja nela inconscientemente a outra mulher. Nesse caso, mãe e filha entram em conflito como se fossem duas amantes rivais. Mas quando a criança diz: “Você é minha mãe e eu sou sua filha; com a outra não tenho nada a ver; eu tomo você como minha mãe”, então a ordem é restabelecida.
Existem contudo emaranhamentos bem mais complicados. Quando, por exemplo, numa família, um filho morre prematuramente, os filhos sobreviventes carregam muitas vezes um sentimento de culpa pelo fato de estarem vivos enquanto seu irmão está morto. Acreditam que, por estarem vivos, possuem uma vantagem sobre o irmão falecido. Então querem compensar isto, por exemplo, deixando-se ficar mal, adoecendo ou mesmo querendo morrer, sem que saibam por quê.
Aqui, pertence à ordem do amor que cada um diga interiormente ao irmão morto: “Você é meu irmão (minha irmã). Eu respeito você como meu irmão (minha irmã). Você tem um lugar em meu coração. Eu me curvo diante do seu destino, da forma como lhe aconteceu, e digo sim ao meu destino, da forma como me tocou”. Estão a criança morta é respeitada e a outra pode permanecer viva sem sentimento de culpa.
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