27/05/2009 A imagem mágica do mundo e suas conseqüências
Por trás da necessidade de compensação, que faz adoecer, atua uma fantasia mágica, a saber, que posso salvar uma outra pessoa de seu pesado destino, desde que eu também tome algo de pesado sobre mim. É o caso da criança que diz à mãe gravemente doente: “Antes adoeça eu do que você. Antes morra eu do que você”. Ou ainda, quando a mãe quer abandonar a vida, um filho se suicida, para que ela possa ficar viva.
Um exemplo disto é a magreza compulsiva. O anoréxico vai se tornando cada vez menor, desaparece, por assim dizer, até a morte. Em sua alma, essa criança está dizendo a seu pai ou a sua mãe: “Antes desapareça eu do que você”. Aqui atua um amor profundo. Mas quando a criança morre, qual é o efeito desse amor? Ele é totalmente inútil.
Quando trabalho com uma pessoa com essa compulsão, faço que olhe nos olhos do pai ou da mãe e diga: “Antes desapareça eu do que você”. Quando os encara nos olhos a ponto de realmente os ver, ela não consegue dizer essa frase, porque percebe que o pai ou a mãe não aceitará isso dela. È que o amor mágico desconhece o fato de que também a outra pessoa ama e recusaria isso, independentemente da inutilidade de tal amor.
Quando a mãe morre ao dar à luz um filho, é muito difícil para essa criança tomar a sua vida. Ela precisaria encarar a mãe nos olhos e dizer: “Mamãe, mesmo por este alto custo eu tomo esta vida e faço algo de bom com ela em sua memória. Você precisa saber que não foi em vão”. Isto é amor, num nível mais elevado. Isto exige o abandono da fantasia mágica de poder interferir no destino de outra pessoa e mudá-lo. Exige a passagem de um amor que faz adoecer para um amor que cura.
A fantasia do amor mágico está associada a uma presunção, a um sentimento de poder e de superioridade. A criança realmente acha que, com sua doença e sua morte, pode salvar da morte a outra pessoa. Renunciar a essa idéia exige humildade.
Até aqui falei da ordem do amor na relação entre filhos e pais.
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